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Contento-me com as tardes - 26Ago2020 15:48:10
Já não procuro as imperfeições nem as quedas de água na paisagem.
Sei que as ruas ao perto são fendas que ao longe são vales distantes, rugas lavradas no tempo da terra.
Já não procuro os amanhãs que cantam nem vozes versáteis em muitas oitavas.
Contento-me com as tardes, só com as tardes. E contigo que ao sol tardio te debruças e aguardas, encostada ao parapeito, que a lua espreite na penumbra. No recorte frio e misterioso da noite.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/contento-me-com-as-tardes-93443 Não desisto! - 20Ago2020 16:00:41
Não desisto!
Conduziram-me pelo braço ao muro e ali fiquei. A impotência tinha-me tolhido a vontade e viver assim deixava-me envergonhado. Não me vendaram porque não quis. Queria fitar os olhos dos meus algozes, ver neles o medo, porque os senti medrosos.
À ordem do oficial um jovem imberbe colocou a arma ao ombro e saiu do pelotão. Dirigiu-se a mim e colocou-me de costas, voltado para a parede. O muro era branco e eu não suportava tanta Luz. Reparei que a cal mascarava sangue e que as fendas do muro sombreavam a claridade, como crateras.
Na cal salpicada de riscos de sangue vi tudo quanto tinha visto, como se abrisse o diário que nunca escrevi.
Cerrei os olhos e aguardei pelo fim. Antes da ordem, a sombra do jovem imberbe soçobrou e ajoelhou-se com ele.
Ergui o punho e disparei a Palavra: Fraternidade! Fraternidade! Fraternidade!
E o branco tingiu-se com o meu sangue.
Mas não desisto!
Imagem: Luísa Rivera - 100 anos de solidão Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/93287.html Cega-rega - 23Jul2020 18:59:44
I com tanto calor já nem durmo! incomodam-me as cigarras, que à noite cantam à lua como se estivessem ao sol. quem disse que as cigarras não cantam ao luar? quem disse? II disfarçadas entre as laranjas verdes é vê-las ao despique com os grilos, com elas a cantar o fado vadio e eles à guitarra, gri-gri gri-gri, a correr atrás do canto da cigarra. III ? cantarei até que a voz me doa? diria Amália. mas a gritaria desta bicharada sai-lhes das asas, numa cega-rega que irrita sem tréguas os frutos do meu pomar. ah! felizmente as laranjas são pacientes, as árvores são pacíficas e a Amália, que Deus tenha, dorme serenamente no panteão. IV tri tri tri tri tri tri, com tanto calor já nem durmo! gri-gri gri-gri gri-gri puta que pariu o Verão!
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/cega-rega-93093 Ausência - 13Jul2020 16:02:04
Não deixa de ser curioso, irónico até, que eu chegue aqui intacto na bondade e nos costumes.
Lúcido? Não sei o que é um homem lúcido! A minha lucidez está no que os outros veem por mim, quando conseguem ver.
Olho para trás e vejo que cheguei solteiro de companhias. Estive eu quando me alegrei e estive eu, quando me entristeci.
Não estavas. Nunca estiveste!
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/ausencia-92909 A burra do senhor Pombinho - 03Jun2020 13:37:11
De calções e de sandálias, ainda não sabia bem quem era e já pedalava no meu triciclo feito de ferro e madeira.
Pedalava, Pedalava, Pedalava.
E quando o senhor Pombinho parava a burra, tocava a corneta e chamava para que vissem as frutas e as verduras que trazia, eu dava ao pedal e ia pelo quintal.
Os pedais guinchavam e a roda da frente, desconchavada, dava e dançava ao sabor das pernas.
Em ziguezague, em zaguezigue
No largo, frente ao portão, estava a carroça carregada de frutas, legumes e hortaliças muito viçosas. No chão, o descanso caído porque a alimária, de tão má, espumava de cansaço.
A burra travessa e destravada mordia os mais incautos e atrevidos. E o senhor Pombinho dizia: - Cuidado que ela é falsa! Só não ladra porque não é cadela!
Mas eu sabia que ela ladrava a zurrar e zurrava a ladrar.
Quem se aproximava da carroça, mesmo sem querer provava as doçuras que o Pombinho trazia. As melancias jaziam caladas* com as entranhas à vista, os figos desalinhados e os cachos de uvas negras ficavam ratados e sem planta nenhuma.
E o senhor Pombinho protestava.
Com o tempo o homem deixou de aparecer e eu nunca percebi se tinha morrido ele, a burra ou a carroça.
Hoje imagino o Pombinho, qual pombinha, a dar às asas, a carroça desengonçada a voar com ele e a burra, qual Pégaso, a relinchar aos zurros pelos céu azul.
E eu de calções e sandálias.
*Calar: Fazer abertura ou corte em certos frutos, geralmente para provar ou ver se estão maduros (ex.: calar a melancia).
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/a-burra-do-senhor-pombindo-92668 Véu de silêncio - 16Abr2020 23:31:54
I no dicionário procuro a palavra. leio que o silêncio é a ausência total, ou relativa, de sons audíveis e que os surdos vivem numa cultura silenciosa. não é este o silêncio de que tanto gosto, não. mas este silêncio está no princípio do meu silêncio e é nele que imagino e concebo a ato da criação. II quando, com a palavra, o quebro, trago para fora de mim, e talvez para os outros, o que penso e a vontade que tenho. quando tenho. mas porque nada existe sem a Divina Figura depois da vontade falta o Verbo, que no princípio era o que ainda é. III tudo era negro e vazio e a palavra quebrou o silêncio para que a Luz rasgasse o escuro e o mundo das formas se visse. IV cada melodia é, tão só, ela e ela mesma, cada palavra é, tão só, ela e ela mesma. mas o silêncio é tudo, porque tudo contém. V e eu, que vejo o mundo através dos olhos que tenho, sei que ele é um espelho do que sou. - queres um mundo diferente? pergunta-me do outro lado, o silêncio. - queres? então, muda!
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/veu-de-silencio-92263 Lamento de mãe - 31Jan2020 18:08:43
ao eco dos tambores quem me abraça? quem me abraça?
quando o vento chega turvado pelo ruido das botas dos outros pelo anúncio metálico das suas espadas pelo hálito pesado dos seus canhões quem me abraça? quem me abraça?
não sinto que as mães alheias tenham filhos diferentes dos meus
quando a rosa dos ventos da Paz deixar de ser Rosa também elas dirão quem me abraça? quem me abraça?
imagem daqui: http://valkirias.com.br/batalha-por-sevastopol-lyudmila-pavlichenko-e-participacao-feminina-na-guerra/ Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/lamento-de-mae-92015 Admiráveis mentiras - 17Out2019 18:21:08
Admiráveis são as mentiras que nos contam na cidade. Que a luz apenas ilumina quem merece, que a vida é como é, porque se não fosse não seria assim, que o amor, a ser um estado, não será sólido nem líquido.
Foge Zygmunt, que te afogas. Corre, voa, antes que a maré se cumpra.
Admiráveis e corroídos são os mitos urbanos. Puras e castas as laranjeiras do meu pomar que somam laranjas em contas de somar.
Que me digam mentiras. Que me contem verdades.
Que me digam que o merecimento é fruto da escravidão e que a razão da vida fica próxima do acaso. Ou que o amor não existe. Só fingimento.
Quero lá saber! Sou livre de acreditar.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/admiraveis-mentiras-91554 Os vidros ( I ) - 16Set2019 19:10:20
Os vidros não turvam o que está para além da janela.
O verde continua verde, o céu azul continua céu e amarelas as cearas maduras.
Para além da transparência as crianças correm, imprevidentes, tagarelas mas seguras.
Assim correria eu. Assim correria eu.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/os-vidros-i-91247 Olisippo - 20Ago2019 14:35:43
I Quero que os velhos mais velhos, toda a gente sem idade se entregue. Que das portas abertas ao Tejo se vejam os mistérios que perduram, que se perdem e acham na corrente.
Porque é bela a cidade, quente e majestoso o cio que ela verte.
II Ó Lisboa das Tágides errantes! Ó colinas que nem Safo, como Lesbos, cantou! Olissipo que estás na fronteira do céu, por onde Ulisses, atento e errante navega os caminhos do mar.
III Não! Não canta quem desconhece quantas as janelas que se abrem para o rio.
Quem não vê a espuma da manhã nem as brumas que invadem as colinas depois de uma noite fria, não te pode cantar.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/olisippo-90988 O pomar das virtudes - 02Jul2019 19:09:30
Por campos abertos cheguei ao pomar das virtudes, onde os frutos são de açúcar e a fé das árvores se guarda nas sementes.
Com as primeiras chuvas o restolho exalava o hálito da terra e o sumo doce das cerejas saciava a esperança dos que tinham sede.
E segui por veredas estreitas.
Cheguei depois às macieiras: ao limbo, às maçãs. Lavei-as do primeiro pecado e elas, grávidas de caridade, deram-se. Maduras e perfumadas saciaram-me a fome. Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/o-pomar-das-virtudes-90625 Luz de Maio ( I ) - 06Mai2019 18:29:36
I
São brancos e seráficos os poemas que Hermes declama aos úberes férteis da mãe.
São dádivas que Maya escuta, escritos que grava no peito onde mama o filho que tem.
São feéricos. São feéricos os frutos e a luz de maio. São primícias colhidas no sol dos pomares, nos prelúdios fecundos do Templo. No colo virgem das Vestais.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/luz-de-maio-i-90395 Herr Kant - 10Abr2019 20:15:36
Encasacado, encostou a cabeça à porta e deu-lhe três cabeçadas, ao de leve.
Retirou do bolso o relógio e conferiu: eram quinze e trinta.
Rodou a chave e saiu asinha para a rua gelada. Olhou para a negritude do céu e concluiu que o passeio seria curto e frio.
E na breve caminhada que fez pela cidade todos acertaram o relógios à passagem de Herr Kant.
Às quinze e trinta e um, o barbeiro da esquina suspendeu a navalha e olhou para o cuco que se escondeu depois da cantoria.
Às quinze e trinta e cinco a dona da casa de chá, que ajeitava as iguarias na vitrina, curvou a cabeça à passagem do filósofo e bateu com os queixos na torta de laranja.
E lambeu-se, sorridente.
Às quinze e quarenta começaram a cair gotas grossas, grossas gotas de chuva. A intensão do passeio era muito boa mas era imperioso regressar.
E Herr Kant pensou e decidiu, asinha, caminhar de regresso ao lar.
E nunca mais as horas foram as mesmas!
Os relógios ficaram à sorte e no resto do quarteirão o tempo ficou incerto, de cama, com o filósofo da razão à morte.
?O céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.?
A que horas, Herr Kant?
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/herr-kant-90364 FdP - 09Jan2020 16:18:24
Releio o Alberto Canela (ou será Pimenta?) e desde logo me surpreendo! Então o homem não fala dos pequenos e dos grandes e deixa no esquecimento os refinados e os refinadíssimos?
Que os pequenos aspirem a ser grandes, é vulgar. Que os filhos da puta, ou de puta (sei lá eu, porque o da e o de parece definir o estatuto da patuleia e dos bem-aventurados), aspirem o pó fino da filha da putisse com a mesma naturalidade com que respiram o ar que todos respiramos, é vulgaríssimo!
O que já não é vulgar é que nos digam com aquele ar cândido de anjinhos que sabem pôr, ?que se nos metem o dedo no cú é para nosso bem, ?que sem eles, o que seria de nós ?e que tudo conduzem em nome do bem comum.
Tanto o refinado como o refinadíssimo filho da puta serão sempre bem-aventuranças em pessoa. Sempre!
Não é que tenham recebido essa graça nas margens do Tiberíades. Não. Não é disso que se trata. Eles são bem-aventuranças porque todos os filhos da puta são filhos de Deus. Mas não sabem.
O pequeno difere do grande pelo tamanho. Mas o refinado filho da puta difere do refinadíssimo pela qualidade das filhas da putisse que distribui Urbi et Orbi.
Dizia o filósofo antigo que os justos são serenos e solícitos os injustos. Nada mais verdadeiro! Não conheço refinado nem refinadíssimo filho da puta ?que de dia não seja solícito e prestável, ?que não fale espargindo simpatia.
E à noite? À noite descansam os filhos da puta que são! E valha-nos, ao menos, o sono que têm: porque também dormem. É da sua condição!
Mas quando acordam, logo ?ladram às caravanas dos outros ?e uivam de raiva, de inveja e de ciúme.
É da sua qualidade! O seu costume.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/fdp-91699 No limite - 22Fev2019 14:05:56
no limite, mesmo no limite, dizer muito em poucas palavras é dizer tudo em silêncio.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/90101.html Surpreende-me ! - 10Jan2019 23:14:39
surpreende-me! diz-me que nas tuas mãos, arada pelos teus medos a terra se mantém firme.
e deixa-me no ouvido, em segredo, as palavras que te escapam como areia pelos dedos.
pede-me, vá... pede-me!
a sombra do meu corpo projetada no areal quente. o contorno impreciso e ardente das dunas no calor perfumado pelo sal.
imagem daqui: http://www.jf-samouco.pt/freguesia/paisagem/1898822_1407138986203664_1575736142_o/ Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/surpreende-me-89557 Noites Frias - 04Jan2019 12:41:13
Quando um ano cai e outro entra as duas faces de Janus sorriem.
Cronos, no Lácio acaricia os tempos.
O tempo dos dias, o tempo das memórias, o tempo das noites frias.
Imagem daqui: secondselfbeer.com Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/noites-frias-89283 A Corrente - 07Dez2018 17:04:06
convivo bem com as raízes, letras e palavras que tudo nomeiam.
sei que existem alfabetos estranhos, símbolos que estão fora do léxico, escritos para quem não sabe ler nem escrever, mesmo sabendo.
sim. os degraus do Templo são planos e olhos nos olhos nos vemos, de coração contente e de braços firmes na corrente que formamos.
sim. sem vós, que faria eu aqui?
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/a-corrente-88855 Penas - 27Nov2018 18:04:59
quando canto a alvorada ainda tenho as asas húmidas do orvalho que, puro, se condensa muito cedo na orla das penas que me cobrem a pele.
para além da escuridão que se esfuma não sei que outras fronteiras existem entre a noite e o dia. não sei!
pergunto, se a névoa que se levanta mais os mistérios do vento? se as nuvens salgadas que envolvem a praia, mais a transparência do mar?
respondo que nada disso é assunto das aves. as minhas penas não são tristezas nem condenações.
são plumas de enfeitar.
imagem daqui: http://wonderfulseaworld.blogspot.com/2012/03/aves-marinhas.html Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/penas-88626 Sonho ( I ) - 30Out2018 14:05:24
I
encostei-me à entrada. olhei para cima e vi projetadas no azul celeste as barras firmes do portão.
como são altas, férreas e sólidas! está fechado a sete chaves, pensei.
e eu aqui esquecido, nos passos perdidos do paraíso.
II
não sei de nada. ousarei as rimas que ouvi, cantadas no sul e a leste pelas cigarras no lume do verão.
ouço-as tão cálidas, térreas e pálidas! vão assustadas no ventre das aves, pensei.
e tu ali, de braços estendidos, indecisos.
imagem: ZP_Cicada from Borneo_© photographer Alex Hyde
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/sonho-i-88483 Filósofos - 04Out2018 12:28:57
está fora de moda o silêncio, mas é bom estar calado.
penso assim porque a solidão, filosofias à parte, ladra-me como um cão de fila e diz-me que fuja, das brigas e dos abutres como o profeta do toucinho e o diabo da cruz.
sim. se há assunto que não podemos deixar entregues aos filósofos, assim sem mais nem menos, o silêncio e a solidão são dois e julgo que há mais.
eu, deixem-me que vos diga, não sei se estar só é estar sozinho, porque estar sozinho é estar numa solidão mais pequenina do que estar só. e depois, a beleza da solidão está na intimidade das coisas belas, que são belas porque são íntimas.
e o que sabem os filósofos da minha intimidade? tanto quanto eu sei das suas razões que às vezes até se encontram com as minhas.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/filosofos-88309 Pequenos prazeres - 08Ago2018 19:17:14
Eu sei que falarás por ti porque ninguém pode falar por ninguém.
Por mim, e só por mim, falo no cheiro da terra molhada, do pão quente quebradiço na boca e da farinha tisnada na ponta do nariz.
São horas Luís! Vem, que se faz tarde.
Eu sei que falo por mim. Só por mim. Mas a manteiga a escorrer, liquefeita pelas torradas, traz-me de regresso os calções e as nódoas das amoras às pernas imberbes.
São horas Luís...vem, que já é noite.
E quando chegava, ainda me lembro dos banhos quentes e de esponja macia, que nunca conseguiam lavar a memória dos dias.
Por mim, e só por mim, falo. São horas Luís... dorme, que já é tarde.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/87940.html E vindes só? - 04Jun2018 19:13:56
?À barca, à barca, Houlá! Que temos gentil maré!?
E vós, por que rios navegais?
Em cada um dos rios em que navego o meu barco dorme sonos tranquilos, sem sobressaltos. Em sigilo vou, só por ir, ao sabor do destino das correntes para estar, só por estar, no devir guardado de um futuro clandestino que me pertence.
?À barca, à barca segura, barca bem guarnecida, à barca à barca da vida?
E vós o que guardais?
O que gosto de guardar! As horas mais simples num simples segredo que trago das margens obscuras da cidade, para junto das colunas do cais.
?À barca, à barca mortais, barca bem guarnecida à barca à barca da vida?
E vindes só? Na ideia que trazeis? Quando tendes marcada a ida?
Ora, ora! O que gosto de trazer quando não sei da partida!
Nada existe de mais banal que as coisas banais. Venho sempre comigo mesmo e no bolso trago os deuses do inferno, os paraísos do diabo.
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/e-vindes-so-87575 Perguntei-te - 17Abr2018 18:17:25
e quando eu quis cantar disseste-me que não havia vento que me levasse a voz. e eu calei-me.
perguntei-te de onde corria o vento.
disseste-me que os caprichos do ar são tão ínvios e frágeis como livres e ágeis são as ondas do mar. e eu calei-me.
perguntei-te de onde escorria a água.
falaste-me das gotas cristalinas, do orvalho. das lágrimas que se precipitam de madrugada, tão límpidas na verdura chã.
e quando eu vi as aves brancas, suspensas no escuro como luminárias, falaste-me no voo luminoso dos pirilampos. e eu calei-me.
de onde vem a Luz ? perguntei-te.
do Oriente da Terra ou de Ti. na imensidão o centro pode estar em qualquer lugar, respondeste. Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/perguntei-te-87172 Pecadores e Santos - 17Jan2018 20:01:12
nenhuma palavra é inocente. na conspiração das tormentas as palavras desfazem abrigos, canonizam pecadores e santos.
ora caem gota a gota, ora em torrentes que nos conduzem aos ralos das cidades. é por aí que escoam as silabas, caem as palavras e as frases ficam prisioneiras, no escuro.
nenhuma palavra é inocente! esteja maduro o tempo ou ainda verde a Liberdade
Fonte: https://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt/pecadores-e-santos-87022 Painel controlo
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Anedotas
O filho para a mãe:
- Mãe engoli o teu gira-discos! - E não te aconteceu nada? - Não....Não....Não...!! | ||||||
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